sábado, 29 de março de 2008

Ainda o vídeo - Todos os professores são judeus

Aquele jovem que, filmando a cena, ia comentando "Altamente! A velha vai cair! Altamente!", imaginamo-lo muito bem membro das milícias hitlerianas que, desde 1933 até à guerra, se divertiam a seviciar judeus nas ruas, nas escolas, onde calhasse. Crueldade pura, puro fascismo.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Recuperar algumas palavras que o eduquês pôs no "index"


A escola é, justamente, essa invenção recente, essa instituição que, nos alvores da galáxia tipográfica, se configurou como capaz de transmitir às novas gerações o património cultural (científico, artístico, filosófico) adquirido pelas gerações anteriores. Só pelo ensino, isto é, pela comunicação assimétrica de um saber entre sujeitos diferentemente situados face a esse saber (professor e aluno) esse património tem podido e pode continuar a ser salvo e prolongado, conservado e continuado.

Trata-se afinal de recuperar a dignidade da palavra ensino, ou seja, a crença no poder da assimetria da palavra escolar para operar essa transmissão. (sublinhados da autora)

Olga Pombo, A Escola, a Recta e o Círculo, Relógio D'Água

Elis Regina e Tom Jobim cantam "Soneto da separação", de Vinícius de Morais (música de Tom Jobim). Los Angeles, 1974

sexta-feira, 21 de março de 2008

Mozart - Requiem - Lacrimosa



Lacrimosa dies illa
qua resurget ex favilla
judicandus homo reus.
Huic ergo parce, Deus,
Pie Jesu, Jesu Domine,
dona eis requiem. Amen.

Dia de lágrimas, aquele
em que renascerá das cinzas,
para ser julgado,
o homem pecador.
Compadecei-Vos, pois, deste homem, ó Deus,
piedoso Senhor Jesus,
e concedei-lhe repouso eterno. Ámen.

Zeca Afonso - Canção de embalar

Crónica de Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Notícias

O Carolina Michaëlis, que já teve o belo nome de liceu, não serve os miúdos do bairro do Aleixo, no Porto. Não, aquele vídeo não mostra gente com desculpas fáceis, vindas do piorio. Pela localização daquela escola, quem para lá vai vive às voltas da Boavista e os pais têm jantes de liga leve sem precisar de as gamar. Os pais da miúda histérica que agride a professora de francês estarão nessa média. Os pais do miúdo besta que filma a cena, também. Tudo isso nos remete para a questão tão badalada das avaliações. Claro que não me permito avaliar a citada professora. A essa senhora só posso agradecer a coragem. E pedir-lhe perdão por a mandar para os cornos desses pequenos cobardolas sem lhe dar as condições de preencher a sua nobre profissão. Já avaliar os referidos pais, posso: pelo visto, e apesar das jantes de liga leve, valem pouco. O vídeo mostrou-o. É que se ele foi filmado numa sala de aula, o que mostrou foi a sala de jantar daqueles miúdos.

Poema de Daniel Faria (1971-1999)

Devo ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Devo ser o último degrau na escada de Jacob
E o último sonho nele
Devo ser-lhe a última dor no quadril.
Devo ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Devo ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.

In: Anos 90 e Agora, Edições Quasi.

Fotografia de Robert Doisneau (1912-1994)


Madre Teresa de Calcutá (1910-1997): fé e escuridão

Em 1937, após a decisão de fundar as Missionárias da Caridade, Madre
Teresa de Calcutá, em carta a um seu antigo professor, escreve:

Não pense que a minha vida espiritual é um mar de rosas - que é flor que raramente encontro no meu caminho. Bem pelo contrário, o mais frequente é ter como companheira a 'escuridão'.

Madre Teresa de Calcutá, Vem, Sê a minha Luz, Alêtheia.

Mário Viegas diz "Mulheres e revolução", de Maria Velho da Costa

quinta-feira, 20 de março de 2008

Dá volta ao estômago

O vídeo "altamente" abriu os telejornais das televisões privadas. Informaram que a professora não apresentou queixa. Por certo para não ser duplamente enxovalhada. "Os da educação" interrogá-la-iam "de pé atrás", chamar-lhe-iam talvez "resistente à mudança" e outras coisas em eduquês perfeito. Sei que não vem a propósito, mas lembrei-me do caso de Felizberta no fundo do poço, assassinada aos poucos por jovens "irreverentes". Dá volta ao estômago.
Os do sindicato pediram - mal se acredita - mais autoridade para os professores. A reboque da realidade, finalmente.

Olivier Messiaen (1908-1992) - Louange à l'éternité de Jésus

Cesária Évora - "Lua nha testemunha"



Bô ka ta pensâ
nha kretxeu
Nen bô ka t'imajiâ,
o k'lonj di bó m ten sofridu.
.
Perguntâ
lua na séu
lua nha kompanhêra
di solidão.
Lua vagabunda di ispasu
ki ta konxê tud d'nha vida,
nha disventura,
El ê k' ta konta-bu
nha kretxeu
tud k'um ten sofridu
na ausênsia
y na distânsia.
.

Mundu, bô ten roladu ku mi
num jogu di kabra-séga,
sempri ta persigi-m,
Pa kada volta ki mundu da
el ta traze-m un dor
pa m txiga más pa Déuz

Crioulos de base portuguesa



Da autoria de Dulce Pereira, é o número 3 da Colecção "O essencial sobre Língua Portuguesa", da Caminho.
Parte-se do princípio, hoje consensual (mas ainda quase só entre os estudiosos), de que um crioulo é uma língua natural, formada a partir de um específico contacto entre línguas, em que há um claro predomínio, embora mais lexical do que gramatical, da língua de superstrato, que aufere de mais prestígio e poder funcional.
A língua portuguesa, associada a circunstâncias históricas conhecidas, está na origem de crioulos de grande vitalidade, como é o caso muito especial do cabo-verdiano, uma língua que também por cá se fala, "inclusive" nos pátios das nossas escolas. Outros crioulos africanos de base lusa são os da Guiné-Bissau e os de São Tomé e do Príncipe. Tudo no plural, porque, num mesmo país, os crioulos não são uniformes e dependem das línguas de substrato. No Oriente, a autora refere o Korlai, na Índia, e Papia Kristang, em Malaca - ambos ainda vivos.
Em Angola e em Moçambique não se desenvolveram crioulos, o que reforça a convicção de que essas línguas emergem num clima de marcada insularidade, ou, pelo menos, em espaços circunscritos em que se concentraram populações de origens muito diversificadas.
Na época pós-colonial em que vivemos, as línguas crioulas (e com elas as culturas crioulas), em particular as de base portuguesa, são realidades linguísticas e, "latu sensu", culturais em que se depositam legítimas expectativas.


Transcrevo do livro um breve texto escrito em crioulo cabo-verdiano, seguido da tradução em Português:

Gjoka Maninha, dispos d'uns anu na Sul, e ranja getu e ben tera mata sodadi p'e odja modi ki kusas sta. Familia fika pa tras. Asi si nisisidadi panha-l ta susti-el so.
E txiga, kabu ka staba sima e dexaba. Kusas nobu pa tudu banda. Pilorinhu fartu. Tera libri sen skrabatura ki fulia-l pa kosta baxu.

Joca Maninha, depois de uns anos do Sul [São Tomé], arranjou forma de vir à terra matar saudades, para ver como as coisas estavam. A família ficou para trás. Assim, se passasse necessidades, aguentava-as sozinho.
Chegou, o sítio não estava como ele o tinha deixado. Coisas novas por toda a parte. O mercado farto. A terra, livre, sem a escravatura que o tinha enviado pela Costa abaixo.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Chet Baker - Almost blue (de Elvis Costello)

"Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya", de Jorge de Sena











Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer uma delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse "com suma piedade e sem efusão de sangue."
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou as suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gestode amor, que fariam "amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
ara a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Lisboa, 25 de Junho de 1959

"Ainda me acolho", de António Osório

Ainda me acolho, Pai,
à tua madressilva.
Ali tens a passiflora,
não envelheceu.
O cedro grande, maior ainda.
O forno, dedadas
expungidas pelas portas.
A buganvília, não esqueço,
é preciso cortá-la.
A Mãe não está nem volta.

Josefa de Óbidos - S. José e o Menino (1670)

Torre de Babel, de Brueghel o Velho

Ficha 28 - Colocação de vírgulas (1)

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