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quarta-feira, 4 de junho de 2008

Sobre a subvalorização da literatura nos programas de Português

Mark Rothko, 1949

Penso que se tal subvalorização triunfasse e se instalasse, ela poderia muito provavelmente representar não só uma severa limitação dos modos de circulação da literatura, mas uma violenta expropriação das possibilidades e do direito de acesso à relação literária, para muitos daqueles que por razões das suas origens familiares e, em geral, sócio-culturais, não terão, fora da escola, muitas oportunidades para se encontrarem com a literatura. Neste caso, como em outros, a demagogia populista, que ‘resolve’ as dificuldades evitando-as, faz o jogo que destinaria a literatura a reserva de elites (se é que elas ainda se dão a tais futilidades).

GUSMÃO, Manuel (2006), “Desde que somos um diálogo”, in: Inês Duarte e Paula Morão (org.), Ensino do Português para o Século XXI, Edições Colibri / Dep. de Linguística Geral e Românica e Dep. de Literaturas Românicas / FLUL, p 24.

terça-feira, 6 de maio de 2008

É uma linguista (Inês Duarte) que o diz: ensine-se explicitamente gramática!


Nas últimas décadas, a reflexão sobre a estrutura e o funcionamento da língua tem sido subalternizada nas aulas de Português.

Porventura por influência das abordagens comunicativas dominantes nas línguas estrangeiras, tem-se atribuído a tal reflexão um papel secundário ou meramente instrumental – o da correcção de erros de uso.

Os efeitos desta filosofia são conhecidos. Os alunos concluem a sua escolaridade secundária sem consciência explícita das regularidades da língua, dos tipos de unidades que formam as palavras a as frases, dos paradigmas flexionais, dos processos de formação de novas palavras, dos padrões de articulação entre frases. O seu fundo lexical activo e passivo é mais restrito do que seria desejável. São notórias as suas deficiências relativamente ao domínio das convenções ortográficas e das regras de pontuação.

Sem retirar às aulas de língua materna o objectivo de trabalhar as modalidades ouvir/falar, ler/escrever, sustentamos que elas são o espaço curricular em que a reflexão sobre a estrutura e o funcionamento da língua deve caber como componente autónoma. Sustentamos que é necessário dar aos alunos, nas aulas de Português, múltiplas ocasiões para um trabalho “laboratorial” sobre a língua, desligado dos objectivos comunicativos com que a utilizamos como falantes.

Inês Duarte, “Oficina gramatical: contextos de uso obrigatório do conjuntivo”, in Para a Didáctica do Português – Seis Estudos de Linguística, Lisboa, Edições Colibri,1992, p. 165.