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domingo, 16 de março de 2008

Inícios auspiciosos (4)


Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais, que nunca é fácil, era simplesmente impossível. Estavam ambos sentados a jantar numa sala minúscula no primeiro andar de uma estalagam georgiana. Na sala ao lado, através da porta aberta, via-se uma cama de colunas, com uma colcha de um branco imaculado e espantosamente lisa, como se tivesse sido esticada por qualquer mão não humana. Edward não referia que, até então, nunca havia ficado num hotal, enquanto Florance, após muitas viagens que fizera com o pai, já tinha vasta experiência nesse domínio. Superficialmente, estavam bem-dispostos. O seu casamento, na igreja de St. Mary, em Oxford, tinha corrido bem; o serviço religioso foi correcto, a recepção divertida, a despedida dos amigos da escola e da faculdade ruidosa e animada.


Ian McEwan, Na Praia de Chesil, trad. de Ana Falcão Bastos, Gradiva.

terça-feira, 11 de março de 2008

Inícios auspiciosos (3)

1.
Nasci num tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total de inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim.

domingo, 2 de março de 2008

Inícios auspiciosos (2)


Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou,
cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hiperíon,
o Sol - e assim lhes negou o deus o dia do retorno.
Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.

Homero, Odisseia, tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Inícios auspiciosos (1)


Eu tinha vinte anos e não permitia que ninguém dissesse ser essa a mais bela idade da vida.
Tudo ameaça com a ruína um jovem: o amor, as ideias, a perda da família, o ingresso entre os grandes. É muito duro obter a sua parte no mundo.
Paul Nizan (1905-1940), Aden-Arábia